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10.3.18

Pão na porta

Quando era miúda deixavam o pão na porta das casas. Ao domingo era a rosca! Aí a rosca! 
Quem nunca comeu rosca com manteiga não sabe o que é bom! 
Era a Zeza padeira que trazia e ainda me lembro de ir buscar leite que vinha em sacos, a minha bó fervia e eu e ficava ali à espera para tirar a nata que amava! 
Na minha terra era assim, pão deixado na porta, portas que não se trancavame podiam até ficar encostadas. Dá-me sempre um sorriso nos lábios quando chego a uma terra e vejo algum destes sinais. Dá-me paz. 
A tranquilidade que se vive fora da cidade grande ganha-me e invejo-a. 
Lembro-me que durante a semana ia à Ana Maria ao pão e muitas vezes ela dava-me uma fatia de broa de milho, daquela bem escura, com manteiga e eu eu ia feliz aos saltinhos pela rua enquanto comia a broa e ao mesmo tempo enrolava o saco do pão que ficava todo amassado e depois a bó ralhava-me “ Oh filha já te disse que não podes andar com o saco as voltas, bandida “
Às vezes ainda saltito na rua para voltar àquele tempo ou então nem sei ao certo se não será para sentir aquela liberdade tão plena e inconsciente. 
Nós tínhamos sempre duas roscas, ou então três e era dia de festa, pedaço de rosca com manteiga e depois havia aquele truque de colar açúcar na manteiga e depois molhar no leite com cevada ou em dias mais alegres, leite com cola cao que, finos como ratos, metíamos sempre uma colher do pó adorado na boca sem a mãe ver  ( sem a mãe ver, ou então a ver que a minha mãe com a minha idade já tinha 7 filhos ou seja era uma miúda que no fundo era nossa amiga e brincava à vida connosco e mesmo a ralhar acabava sempre a rir, miúda a ver-nos felizes ) 
Aquela saca de pão na porta fez-me lembrar muita coisa, e ter a certeza que todas as minhas histórias me fazem ter a história que tenho.
Todos os dias sou grata por vir de onde venho e sempre que penso isso fico a sorrir de orgulho. 


4 comentários:

  1. Barcelos e as suas maravilhosas lembranças.

    Beijinhos �� de uma das netas da Zeza

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Na minha infância, não me lembro de histórias assim. Tinha a padaria e o supermercado bem perto de casa e, bem cedo, íamos lá comprar o pão matinal. No entanto, lembro-me que na casa da minha avó, em Sintra, aparecia todos os dias o padeiro a entregar o pão. Lembro-me que ele gostava de mim, via-me sempre aos pulos quando eu ia visitar a minha avó ou ficava lá a dormir. Mas foi há tanto tempo!

    É esse o problema de quem vive na cidade grande: perde-se a beleza dessa inocência e dessa vivência tão natural, familiar e humana e começa-se a julgar que tudo é assim automático e ruidoso e muito adulto. Quase todas as vezes, acho que os adultos são demasiado adultos e querem tornar as crianças adultos sérios muito cedo. Perde-se a beleza do brincar na rua. Perde-se a beleza dos gestos simples de quem vive com mais naturalidade.

    Muitos beijos!

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